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A História de Vida de Rosângela de Oliveira - Funcionária da Faders

Rosângela de Oliveira, na Faders, onde desempenha suas atividades profissionais

História de Vida de Rosângela de Oliveira, deficiente física

Meu nome é Rosângela de Oliveira, tenho 45 anos e trabalho na Faders/SJDS há 6 anos. Vou contar um pouco da minha história, nasci na cidade de Canoas onde vivo até hoje. Lá vivi com minha mãe e cinco irmãos. Aos dois anos de idade tive paralisia infantil e aqui começa uma história de muitos desafios. Minha mãe conta que foi muito difícil saber que eu estava com paralisia, visto que éramos muito humildes e sozinha com seis crianças seria muito difícil cuidar de mim. Porém ela não desistiu e seguiu trabalhando e tentando dar o melhor para mim e meus irmãos.

Aos sete anos, minha mãe procurou uma escola que fica perto de casa, mas a resposta da Diretora é que não tinha como me receber na escola pela minha deficiência, pois poderia constranger a mim e aos meus colegas de aula. Então minha mãe tão humilde e de pouco conhecimento pensava que esta diretora tinha razão. Quando minha mãe me deu a noticia de que não estudaria naquele ano, me senti muito triste, visto que meu irmão mais novo ia para a escola, enquanto eu ficava em casa brincando de boneca.

Por volta dos dez anos uma professora se mudou para o lado da minha casa e ela tinha dois filhos, os quais brincavam comigo e meus irmãos. Ela me perguntou se eu ia à escola e eu lhe disse que não por que não tinha como ir a escola, a professora passou a me dar aulas particulares onde aprendi a escrever meu nome e por um ano eu aprendi muitas coisas com ela, já escrevia e lia algumas coisas. Mais tarde ela foi embora, mas me deixou alguns livros e eu continuei estudando sozinha e com meus irmãos.

Quando precisava ir ao médico minha mãe me carregava no colo andávamos de ônibus e tudo era feito sem ajuda de ninguém. Minha mãe me carregou no colo até meus 15 anos. Tive uma festa muito bonita de aniversário, não como toda a menina sonha, mas contou com a presença de muitas pessoas queridas, com direito a Valsa e tudo.

Uns meses depois precisei fazer uma cirurgia nas pernas no Hospital Santa Casa quando conheci a Irmã Terezinha. E ela me informou sobre a FCD. Me aconselhou a participar dos encontros que a FCD realizava com jovens com deficiência. No começo não aceitei a idéia, relutei até que recebi a visita de um rapaz com deficiência, o Tonico, que me disse que eu iria ao encontro mesmo contra minha vontade por que eu iria acabar gostando. Então fui até o encontro no FCD e chegando lá me senti muito mal, pois tinha muitas pessoas com deficiência e isso me deixou deprimida, mas ao ouvi-los falar comecei a perceber que haviam pessoas com deficiências mais graves e contavam sobre passeios e noitadas das quais eu nunca havia experimentado. E passei então a ver que minha deficiência não me impediria de viver normalmente.

Passei a ir com mais freqüência aos encontros e o Tonico me aconselhou a estudar e foi junto comigo na escola Bento Gonçalves em Canoas, onde me matriculei na alfabetização de jovens e adultos no turno da noite, a escola ficava há uns 2 km da minha casa. O Tonico me deu uma cadeira de rodas para que eu pudesse ir à escola e me tornar mais independente. Mesmo com a cadeira de rodas minha mãe ia comigo todas as noites para a escola me levando e buscando a pé. No primeiro dia de aula eu achava que sofreria muito preconceito. Mas não foi assim, quando cheguei à escola me deparei com uma escada e os alunos que estavam ali por perto me ajudaram a subi-la, conheci os novos colegas e ali fiz muitos amigos, os quais me esperavam chegar todos os dias para me ajudar a subir a escada e assim poder acompanhar as aulas.

Eu estava muito feliz, em nenhum momento senti nenhum preconceito e nenhuma discriminação, fui bem recebida pela escola, pelos professores e principalmente pelos meus colegas. Encantei-me pelos estudos, vi coisas que nunca tinha visto, aprendi mais do que poderia se ficasse só em casa. Nesta escola estudei e terminei o Ensino Fundamental. Não retomei os estudos, por que minha mãe já estava ficando com mais idade, e eu a ajudava a cuidar da casa e dos meus irmãos menores. Mas continuei a freqüentar a FCD.

Alguns anos depois um grupo dentro da FCD desejava fazer outras atividades que não fossem apenas encontros e conversas, mas algo mais articulado e com mais garantias de acesso ao trabalho. E juntamente com este grupo fundamos a ACADEF (Associação Canoense de Deficientes Físicos). Neste local, exerci minhas atividades, sendo esse meu primeiro emprego; trabalhei por 18 anos. Grande parte de minha formação e experiência profissional foi na ACADEF.

Após um curto tempo, entrei na Faders/SJDS, onde tenho uma experiência bem diferente, em relação à anterior, pois trabalho com colegas sem deficiência em constante contato com a diversidade. No que diz respeito a minha vida pessoal, tenho também vivido outras etapas: casei, tive um casal de filhos, e isso foi uma experiência que acreditava nunca poderia viver, mas apesar de tudo foi uma experiência gratificante.

Essa é a minha história de vida.

* Colaboradores na  ediçao deste material: Eliane Caldas, Maria Cristina Laguna, Joicineli Becker (joice) e Marco Antônio Oliveira Santos.



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