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Nanismo, mídia e preconceito

Agradeço o convite da Faders/Acessibilidade e Inclusão (Fundação de Articulação e Desenvolvimento de Políticas Públicas para Pessoas com Deficiência e com Altas Habilidades no Rio Grande do Sul) para compartilhar, neste Primeiro Encontro Estadual sobre Nanismo, um pouco da experiência, reflexões e inquietações que cercam a vida de pessoas que, como eu, têm uma diferença específica, que segrega.

Assino o blog Isso não é comum, no portal de notícias Sul21, onde escrevo especialmente sobre inclusão e acessibilidade. Falo aqui em nome do Grupo Inclusivas, com quem aprendo muito cotidianamente.

Encarar a repercussão da diferença no meio em que vivemos não é tarefa fácil, mas é tarefa necessária. Especialmente nesses tempos de polarização, em que celebramos a diversidade, mas sentimos na pele o acirramento da intolerância, que parece aumentar na mesma proporção das nossas conquistas. Contrapor-se ao preconceito, seja ele qual for, e enfrentar os limites de uma sociedade que não está preparada para aceitar o outro na sua dimensão, é saudar a riqueza da multiplicidade que nos constitui como cidadãos.

A partir da perspectiva da acessibilidade, da inclusão e da convivência natural entre as pessoas, vejo como fundamental desacomodar os conceitos e pré-conceitos clássicos, já enraizados, e apontar para uma sociedade como soma de diferenças, e não de criaturas hipoteticamente iguais.

A pergunta que me faço é: Como lidar com o que chamamos de deficiência e tudo o que decorre dela, evitando o paternalismo, o fetiche, o clichê, o heroísmo, a vitimização, o estereótipo, o sensacionalismo ou o constrangimento?

Tradicionalmente a sociedade reserva um lugar para quem foge aos padrões de normalidade sobre os quais está estruturada. Discrimina pela condição física, mental, intelectual, social, pela surdez, dificuldade de visão, comportamento, gênero, raça ou cor. É o caso de crianças com Síndrome de Down e Autismo, que tiveram matrícula negada em escolas regulares. É o caso de muitos jovens que procuram emprego e são barrados na primeira entrevista porque sua diferença vira obstáculo. É o caso dos índios, esquecidos e usurpados.

Ninguém se espanta, por exemplo, ao ver o negro como porteiro, operário, empregada doméstica; o homossexual como costureiro, cabeleireiro, fazendo o gênero pitoresco, irônico, de humor fino, ferino; o anão dando cambalhotas, alvo de chacota, figura mágica. É o que lhes cabe neste latifúndio da tal “normalidade”.
Nós, os anões, pelas estatísticas, somos muito poucos, mas o impacto que provocamos é grande, por vezes, assustador. Desde a antiguidade, somos marcados pelo estigma de garantir a diversão de outros, passando pelo grotesco, pelo universo das histórias infantis, pelas figuras estranhas, misteriosas e cruéis dos mitos que correm por aí. Ver o anão nessa condição é natural. Por quê? Porque corresponder ao discurso já dado não inquieta ninguém.

Da chacota vulgar à admiração, da hipervalorização à rejeição total, vivemos entre opostos. E é neste universo contraditório e pouco acolhedor que precisamos cavar um lugar social, nem sempre cômodo, sem passaporte.

Portanto, é vital romper com esses espaços. Só aí a nossa diferença assume outras proporções porque escancaramos a possibilidade da imperfeição e a sociedade é obrigada a se defrontar com o que não quer ver. É nesse confronto que instaura a desordem, desorganizando a frágil organização social, que a mudança começa. É quando as pessoas ditas “normais” são obrigadas a encarar uma realidade que não dominam e a vulnerabilidade do sonho da perfeição.

Cabe, portanto, a nós, com a nossa dificuldade, subverter essa ordem e recusar os papéis que nos são atribuídos, como o do bufão, do coitadinho, da vítima ou do herói. É importante também prestar atenção ao ganho secundário, que vem através da admiração excessiva, do elogio fácil, do aplauso à inteligência e à coragem, espécie de salvaguarda que pode ser perigosa, criar falsas ilusões e mascarar uma condição que precisa ser enfrentada sem adereços, a olho nu.

Resta-nos aprender juntos, fora dos estereótipos e dos discursos já instituídos, velhos e redutores.

A mídia, formadora de opinião para o bem e para o mal, tem um papel muito importante neste sentido: mostrar a vida como ela é, tratar de questões que envolvem a deficiência e o preconceito com naturalidade e verdade, denunciar, apontar leis que preservam os direitos das pessoas com alguma dificuldade, não alimentar mitos, nem transformar as pessoas diferentes em vítimas, super-homens ou mulheres, guerreiros a serem admirados.

Precisamos estar atentos aos efeitos do discurso dos meios de comunicação sobre a nossa condição. É necessário mostrar, instigar, fazer pensar, evitando o sensacionalismo e o desgastado discurso da superação, que não contribuem em nada para causa nenhuma. Há que se ter cuidado para não cair na vitimização e no paternalismo. Há que se ter sabedoria para lidar com uma condição delicada, às vezes jogada em uma espécie de limbo, onde permanece intocável, invisível, pela dificuldade do enfrentamento.

Os anões são quase invisíveis e pouco lembrados como cidadãos e trabalhadores pela sociedade, os governos, a imprensa.

Desde os anos 80, acompanho o assunto na mídia. E uma grande reportagem no jornal O Estado de São Paulo, com um título sintomático e sensível – “A solidão desta gente pequena” – chamou minha atenção. Era pontual e tratava de todas as questões sobre as quais falamos hoje, depois que inclusão e acessibilidade tornaram-se temas indispensáveis.

Em novembro de 2009, reportagem feita pela jornalista Fernanda Zaffari para o Caderno Donna, de Zero Hora, na qual minha irmã Marlene Teixeira, também anã, e eu fomos entrevistadas, foi de uma delicadeza rara. Absolutamente fora do estereótipo, o tratamento foi natural e nos mostrou como mulheres que trabalham e vivem como as outras. A repercussão ainda hoje me surpreende.

Recentemente, no dia 1º de novembro, o programa de Fátima Bernardes na TV Globo, veiculou uma entrevista com pessoas anãs, por conta do Primeiro Congresso Brasileiro sobre o Nanismo, na medida, sem apelo nenhum.

Mas o tratamento dado aos anões, especialmente em programas de televisão e rádio, nem sempre é assim. Às vezes é complicado, para não dizer cruel. Por uma dessas falhas de memória que Freud deve explicar, esqueci as datas, mas vale registrar. Comunicadores do programa Manhattan Connection, veiculado pelo GNT na época, fizeram comentários absolutamente infelizes e preconceituosos sobre os anões, o que acontece frequentemente com os apresentadores do programa Pretinho Básico, da Rádio Atlântida.

Só tratam do estereótipo, sem contraponto, para fazer rir. Pela fala desses comunicadores, quase nazista, não é delegado ao anão um comportamento humano. Os comentários são típicos de quem só está interessado na gargalhada fácil. Comunicadores que precisam ser interessantes o tempo todo, preencher um espaço, fazer humor a qualquer custo. Sem pensar ou questionar, eles ironizam grosseiramente a condição de vida dos anões, demonstrando farta ignorância sobre a diferença e a deficiência.

A palavra anão é sinônimo, muitas vezes, do que é considerado indigno, torpe, pouco. É o caso das expressões “salário com perna de anão”, “anão moral”, “anão diplomático”, “anões do orçamento”, “anões do poder”, que ratificam o preconceito e atuam na nossa autoestima, por mais preparados que estejamos para as afrontas do ir e vir cotidiano. Somam-se aos olhares curiosos, aos dedos apontando, à invasão de privacidade, às perguntas indiscretas e perversas, ao riso, ao toque desrespeitoso, aos que nos ignoram nas filas e nos balcões.

Cabe, portanto, a nós, saltar fora. Só assim construiremos relações mais humanas e agregadoras, fundamentais para a eliminação do preconceito.

Não somos nem coitados, nem vítimas, nem heróis. Estamos na vida como qualquer pessoa, com os nossos limites, nossos sonhos e nossas aptidões.

Para finalizar, uma afirmação do jornalista Luiz Antônio Araujo em artigo publicado no jornal Zero Hora no dia 28 de julho de 2014, sobre notoriedade, preconceito, maus tratos e extermínio: “Ser anão não é para qualquer um”.

Segundo Araújo, o poder, aliado à necessidade da perfeição, sempre alimentou uma elite cruel, em busca de uma impossível “raça pura”. O desejo predominante é acabar com os “chamados disformes, vidas indignas de serem vividas”, escreve ele ao falar do nazismo. Assim se escravizou, exterminou, torturou, subjugou toda e qualquer pessoa, grupo ou raça que não contribuísse com o “aprimoramento da espécie humana”. Assim se discrimina.

Ainda vivemos sob esse eco. E é contra essa subjugação que lutamos.

Observações:
- “salário com perna de anão” (referência ao salário pago a menos, ou o dinheiro que se recebe faltando uma parte)
- “anão moral” (usada por políticos para se referir à conduta de outros políticos – caso de Ciro Gomes ao se referir a Michel Temer, que chamou de ‘traidor e parceiro íntimo de tudo que não presta, à frente deste capítulo do golpe de estado em marcha no Brasil’, e seu sócio Eduardo Cunha)
- “anão diplomático” (porta-voz do Ministério das Relações Exteriores de Israel, Yigal Palmor, ao reagir às críticas do Itamaraty que condenou o uso desproporcional da força militar por Israel na faixa de Gaza, em julho de 2014). - “anões do orçamento” (nome dado a um grupo de deputados no final dos anos 1980, início dos 90, envolvidos em fraudes com recursos do Orçamento da União, investigados por uma CPI, parlamentares sem repercussão nacional, ou seja, ‘anões do poder’).


Lelei Teixeira
Jornalista
I Encontro Estadual sobre o Nanismo
Mesa Mídia e Preconceito

Porto Alegre, 03 de novembro de 2016

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